Praias de Paracatu: O lazer urbano de outros tempos

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As águas que outrora sediaram os velhos garimpos artesanais, o labor das não mais vistas lavadeiras de roupa e a tantas outras atividades humanas – inclusive à pescaria!- são aquelas que hoje poderiam, pelo menos em tese, abrigar opções naturais de lazer que atendessem aos anseios dos cidadãos em Paracatu.

Os registros históricos disponíveis no Arquivo Público Municipal revelam o potencial dos atrativos naturais bastante apreciados no passado, como a Gruta de Vênus (a gruta faz parte do contexto das praias!), a Praia do Matinho no Córrego Rico (o nome vem da existência e ouro neste córrego!), a Praia do Lajedo (em frente à antiga Chácara dos Padres), a Praia do Sant’Ana, a Praia do Vigário e um pouco mais distante, as do São Domingos e São Sebastião.

Em seu nostálgico artigo “Nossas Praias… ainda vivem!”, publicado no Jornal O Movimento de novembro de 1997, a escritora Coraci Neiva perpetua o cotidiano das lavadeiras na praia: “Descendo, desta [Gruta de Vênus] até a praia dos Macacos encontramos as lavadeiras esfregando, batendo as roupas já ensaboadas na pedra; em seguida deixando-as coarar sobre o cascalho. Usavam anil para ficar alvas e azuladas e folhas de patichuli para deixar cheiro. Vestidas de combinação, cantavam felizes. Paravam para o almoço que traziam de casa numa vasilha e pescavam enquanto a roupa secava”.
No álbum de nº 01 do Fundo Oliveira Mello, o distinto historiador registra através de fotografias uma agradável visita realizada pelas normalistas do 3º ano da Escola Normal de Patos de Minas no ano de 1959 à exuberante Gruta de Vênus, localizada nas imediações da Praia do Macaco no Córrego Rico em Paracatu. De acordo com relatos dos Srs. Mauro Neiva e Eduardo Rocha, essa gruta não mais existe.

Em seu precioso artigo já citado anteriormente, a também membro da Academia de Letras do Noroeste de Minas Gerais, Sra. Coraci Neiva (1997), rememora ainda a importância dos atrativos naturais em meio urbano para o lazer da população: “Havia entre o Vigário e o Matim um gramado onde eram realizadas todas as brincadeiras e esportes: andar de bicicleta, jogar peteca, vôlei, futebol, pular corda, cantar, correr, depois lanchar. Namorar também, embaixo dos grandes arvoredos.”

As lentes do saudoso memorialista Olímpio Gonzaga não deixaram escapar momentos prazerosos de diversão vivenciados por crianças e adultos nos afamados atrativos naturais de Paracatu. Na foto de nº 926 do acervo deixado pelo referido historiador e fotógrafo, veem-se crianças em pleno banho no Córrego Rico. Noutra foto, a de nº 933 (ver no rodapé), Olímpio Gonzaga registra o momento do belo salto do jovem Juca Costa no trampolim existente na barragem do açude (provável Lago do Açude, hoje imerso no bairro ao qual emprestara seu nome).

No açude também se realizavam aprazíveis piqueniques, como se vê na foto nº 934 (ver no rodapé) de autoria de Olímpio Gonzaga, onde são vistos ali reunidos as pessoas de Geraldo Neiva, Maria de Lourdes, Conceição, Edite Novais e Dolores. No mesmo local, jovens fazem pose atlética e exibem a bola para o futebol e a câmara de ar para o banho mais seguro, conforme expõe a foto de nº 942 também daquele exímio fotógrafo.

Um pouco mais distante do centro da cidade, o antigo Arraial de São Sebastião também mantinha a sua praia, que por meio da foto nº 1072 (ver no rodapé) de Olímpio Gonzaga, revela o tráfego de tropeiros pelo local e o momento em que seus animais podiam ali saciar a sede.  Reportagem do Jornal O Movimento de abril de 1993, edição 53, traz um relato do que possivelmente restara do Córrego do Neto (em cujo curso possivelmente estaria a praia de São Sebastião): “As águas, que já serviram até de lazer nos finais de semana, estão contaminadas, e ninguém sai em seu socorro”.

Em “Paracatu do Príncipe: Minha Terra” (MELLO, 1978), o autor sintetiza as boas lembranças e o fim daquele lazer urbano de outros tempos: “Eram os animados piqueniques domingueiros das famílias e pessoas amigas às famosas praias do Matinho, do Vigário, do macaco, à poética Gruta de Vênus. Como fruto do progresso, o Córrego Rico, com as suas praias, tornou-se quase seco, coberto apenas de areia”.
A possibilidade de trazer de volta pelo menos parte desse lazer natural e gratuito e devolvê-lo à população, é algo que soa bem distante, diriam alguns mais aviltados com o desenvolvimento urbano, contudo um incipiente e relevante passo já fora dado com a criação em 2011 do chamado Parque Linear, que margeia pequeno trecho do Córrego Rico, mais precisamente onde outrora existira a Praia do Siô Leopoldo (Faria). Alí parte da mata ciliar encontra-se razoavelmente preservada e foram instaladas pistas de caminhada e quadra poliesportiva.
(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projeto e é conservador e restaurador de documentos. Elaborou este artigo a partir de suas pesquisas nos fundos documentais do Arquivo Público de Paracatu – MG.
REFERÊNCIAS
MELLO, Antônio de O. Paracatu do Príncipe: Minha Terra. Paracatu: Academia Patense de Letras, 1978. 144p.
NEIVA, Coraci. Nossas prais…ainda vivem! O Movimento,Paracatu, 16 a 30 nov. 1997. p. 2.
SÃO SEBASTIÃO protesta contra poluição do córrego do Neto. O MOVIMENTO. Paracatu, p. 09, Abr. 1993
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