7 ago 13h35

Os tropeiros, as cargas e a circulação de mercadorias na velha Paracatu

Por: Carlos Lima (*Arquivista)
 
Das formas rudimentares de se fazer comércio até a chegada dos colossais hipermercados dos quais a fama corre solta, verifica-se junto aos registros históricos um longo caminho percorrido pelo município de Paracatu na arte de comprar e vender ao longo de mais de 2 séculos de memória. Esse trajeto é percorrido pelos tropeiros, pelas formas rudimentares de transporte e pela circulação de bens e mercadorias na velha Paracatu. O recolhimento de impostos é parte indispensável na compreensão desse contexto da história regional.
Os carros [de boi] que por aqui trafegavam eram corriqueiramente taxados, como se comprova a partir do livro de lançamento das contas das receitas e despesas datado de 1857 em sua folha 18 verso, em que constam, dentre outras informações, as seguintes: “ Pelo que recebeu o Procurador[…] da matrícula de 2 carros com sal, de Marcos de Araújo Pereira Termo nº 4 … 5.000 réis […] Idem de Luiz Peixoto Brochado, de 5 Bois, e 6 capados Termo nº 10 …. 6.600 réis”.  Essa taxação explica até certo modo a circulação de bens e mercadorias na região.
No suplemento ao balanço das rendas da Câmara Municipal, datado de 1885, o Procurador Felix Pereira da Costa relaciona, em uma planilha manuscrita, a arrecadação das rendas nos Arraiais da Lagôa e São Sebastião pertinentes ao exercício 1º a 31 de Dezembro de 1884. No imponente registro fiscal, constam, dentre outros, a “entrada de 55 carros com gêneros e aluguéis de medidas, pesos e balança e a entrada de 113 bestas carregadas com gêneros sujeitos à taxa”, o que indicaria o importante papel dos tropeiros no desenvolvimento econômico de Paracatu.
O extinto Mercado Municipal, que outrora fora um importante entreposto comercial em Paracatu, faz suscitar por meio de seu livro de escripturação (1909), a movimentação de carros (de boi) e cargas no início do século XX, como se verifica em sua folha de nº 1 verso a arrecadação sobre os seguintes cargueiros: “de José Cristiano de Mendonça de entrada de um carro conduzindo café [e] toicinho …1.000 réis, […] de Antonio Pedro e Companhia de entrada de 2 carros com toicinho com 4 estadas”. Por volta de 1934 o Mercado Municipal encerraria suas atividades, em virtude do declínio do movimento de clientes. 
Quanto à procedência dos produtos que entravam em Paracatu, consta, dentre outras anotações do relatório da estatística das mercadorias nacionais e estrangeiras datado de 1916, a chegada de café proveniente de Carmo do Paranahyba [sic], Patos [de Minas], Porto de Pirapora, Distrito de São Gotardo, além do próprio município. Dos distritos de Guarda-Mór e Rio Preto (hoje Unaí), além do município de Catalão (GO), vinha a borracha que supria a demanda local. Paracatu praticava, portanto, comércio com vários municípios vizinhos, inclusive de outros Estados.
Outro relevante registro de 1916 pertinente à compreensão sobre a presença dos tropeiros e a circulação de bens e cargas em Paracatu é a Guia de nº 21 expedida pela Secretaria de Finanças de Goyaz [sic] em que o Senhor Pedro Soyer recolhe ao fisco a quantia de 11 mil réis decorrente de “taxa itinerária de vinte bestas em trânsito deste Estado (Goiás] para o de Minas [Gerais]”. Como o documento encontra-se arquivado no Fundo Câmara Municipal, tudo leva a crer que no mínimo os tropeiros possivelmente sofressem por algum tipo de fiscalização por parte daquela repartição.
Como se depreende a partir da análise dos manuscritos e dos códices financeiros organizados  e preservados pelo Arquivo Público Municipal, é bem verdade que o passado comercial de Paracatu perpassa pela presença dos tropeiros, pela relação comercial com municípios vizinhos, do transporte de cargas via Navegação do Rio Paracatu, além da existência do Mercado Municipal local.
 
(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projeto e é conservador e restaurador de documentos. Elaborou este artigo a partir de suas pesquisas nos fundos documentais do Arquivo Público de Paracatu – MG.


REFERÊNCIAS
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Livro registro de rendimentos e despesas do Município de Paracatu. 1830-1832. 50fls.
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Livro de lançamento das contas das receitas e despesas.  1857. 102 fls.
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Suplemento ao balanço das rendas da Câmara Municipal. 1885. 1fl.
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Livro de escripturação do Mercado Municipal. 1909. 50fls.
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Estatística das mercadorias nacionais e estrageiras. 1916. 1 fl.
CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Guia nº 21 expedida pela Secretaria de Finanças de Goyaz [sic]1916. 1fl.
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