18 out 08h27

O abastecimento de água em Paracatu em tempos pretéritos

É o Chafariz localizado em frente ao Museu Histórico Municipal um símbolo memorável do passado do fornecimento de água potável à população de Paracatu. Alí, aos 17 de fevereiro de 1907, era inaugurado um indispensável sistema de encanamento que dotaria as residências e outras edificações próximas, com a água proveniente do velho chafariz e da caixa d’água, que não mais existem.
Nas atas de sessão da Câmara Municipal, daquele mesmo ano, registra-se a entrega do tão grandioso feito da canalização construída pelo empreiteiro Dr. Max Haas, bem como a participação das diversas autoridades, das corporações musicais Fraternidade e Santa Cecília e o depoimento do então vereador Dr. Sérgio Gonçalves de Ulhôa que ressalta os “louváveis esforços e patriotismo” do chefe do Edil Christino Pimentel de Ulhôa frente à deficiência das rendas municipais, e a relevância do “abastecimento d’água, que tão beneficamente terá de influir na higiene local.”
A conquista da água potável canalizada também chegaria ao Distrito de Sant’Anna dos Alegres (atual João Pinheiro) no dia 1º de abril de 1908, ainda na gestão do Presidente e Agente Executivo Municipal Christino Pimentel de Ulhôa, que autorizara o mesmo empreiteiro Dr. Marx Haas a executar as respectivas obras. Mais tarde, em setembro daquele mesmo ano, publicar-se-ia a Lei Municipal nº 113, que taxava os usuários do serviço em 25 mil réis para quem possuísse reservatórios de até 300 L e em 50 mil réis para aqueles com capacidade superior.
O panorama sobre o serviço de abastecimento de água em Paracatu na década de 1930 pode ser conhecido a partir do inquérito do Departamento Geral de Estatística, datado de 1939, que aponta, dentre outras, a existência de apenas 500 metros de canalização (do tipo manilhas), do não tratamento da água, do abastecimento de somente 12 imóveis por meio da tubulação e da existência de 2 chafarizes públicos. A precariedade do serviço era tamanha que o documento ainda acrescenta que estudos e projetos para implantação de novo serviço público de abastecimento de água estariam prontos e aguardavam aprovação e orçamento.
A dotação da cidade com um sistema que viesse a atender de forma satisfatória a população era mesmo uma meta perseguida pela administração municipal, haja vista que algumas fontes documentais citam projetos elaborados por especialistas com esse intuito. Nota-se, contudo, uma tenebrosa insuficiência de recursos para que de fato o acesso à água fosse ampliado, sobretudo na primeira metade do século XX. Como se lê num relatório referente ao ano de 1941, da Prefeitura de Paracatu, “a execução de tal serviço, em vista do elevado preço do material a empregar, ultrapassa os limites das possibilidades deste Município”.
Em Julho de 1958, na edição de nº 49 do Jornal Folha Diocesana (Patos de Minas), publicava-se uma entrevista com o então Prefeito de Paracatu Joaquim Adjuto Botelho, que apresentava o quadro do abastecimento de água na cidade: “Os poços artesianos, em número de três, a caixa d’água e a canalização na maioria das ruas, já estão prontos. [...] O serviço de água foi entregue ao S.E.S.P (Fundação Serviço Especial de Saúde Pública) e estamos aguardando a inauguração para setembro próximo [...]”.
Já em Junho de 1960, o Jornal Tribuna de Paracatu abria espaço em sua coluna para que o Grupo Escolar Dom Serafim expusesse a peleja de seus funcionários ao abastecerem a caixa d’água da instituição por meio de uma bomba manual, para assim atenderem 500 alunos alí matriculados. Não obstante naquele ano a tubulação já passasse em frente ao referido  estabelecimento de ensino no seu percurso até o Matadouro Municipal (hoje garagem da Prefeitura), o então alcaide Wladimir da Silva Neiva alegara, de acordo com a publicação, não dispor de verba para realizar tal feito e ainda teria sugerido que os pais dos alunos o fizessem.
Quanto à arrecadação municipal com a prestação do serviço de água encanada, tem-se, entre os documentos disponíveis no Arquivo Público de Paracatu, vários talonários que retratam essa relação com os contribuintes. Como exemplo, citam-se como clientes o Joquei Clube Paracatuense, na Praça JK, com fatura datada de 06/04/1961 no valor total de Cr$ 118,00 e a Conferência São Vicente de Paulo, localizada na Praça do Sant’Anna, com fatura emitida em 20/05/1965 na quantia de Cr$ 400,00. Tais documentos denotam, a época, o funcionamento do que se conhece como Serviço Autônomo de Água.
A COPASA (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) instalar-se-ia em Paracatu em 1978, conforme reportagem publicada no Jornal O Noroeste (Ago. 1986), inicialmente com a captação na Barragem do Espalha e no Sistema Sant’Anna, além de alguns poucos poços artesianos. Naquele momento, o abastecimento limitava-se ao período matutino e constituía-se de apenas 1.000 ligações domiciliares de água, o equivalente a 5.000 habitantes atendidos. Dezoito anos mais tarde, segundo o Jornal O Movimento (Ago. 1996), a referida concessionária apostaria nas obras do sistema de captação do Ribeirão Santa Izabel, para resolver “de vez” a crise hídrica por que passava o município naquele período, bem como viabilizar a chegada da água sobretudo nas localidades mais altas da cidade.  


(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projeto e é consultor em organização de arquivos e memória empresarial.

Referências

BRASIL. Câmara Municipal de Paracatu. Lei nº 113, de 23 de Setembro de 1908: Autoriza o Agente Executivo Municipal a mandar cobrar no districto dos Alegres, licenças pela tirada d’água do encanamento geral. 2 fls.
BRASIL. DEPARTAMENTO GERAL DE ESTATÍSTICA. Divisão de Estatística da Viação e Urbanismo. Abastecimento d’água: Condições gerais dos serviços de abastecimento d’água. Paracatu: 1939. 1fl.
FOLHA DIOCESANA. Patos de Minas, p. 1. 27 Jul. 1958.
O MOVIMENTO. Paracatu, p. 4. 10 Ago. 1996
O NOROESTE. Paracatu, p. 4. 15 Ago. 1986
O NOROESTE. Paracatu, p. 4. 20 Out. 1986
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Ata da entrega e inauguração do serviço de canalização d’água do chafariz desta cidade. Paracatu: 1907. fls. 112-113.
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Autorização de pagamento ao Dr. Marx Haas pela execução das obras de abastecimento e canalização d’água potável no Arraial de Sant’Anna dos Alegres. Paracatu: 1907. 1 fl.
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Talão de consumo de água. Paracatu: 1961. 1 Talão.
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Talão de consumo de água. Paracatu: 1965. 1 Talão.
PARACATU. PREFEITURA MUNICIPAL DE PARACATU. Relatório sobre o abastecimento d’água em Paracatu. 1941. 1fl.
TRIBUNA DE PARACATU. Paracatu, p. 1-4. 26 Jun. 1960.

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