2 set 15h37

Domingo imperfeito

Márcio José dos Santos


Acordei com a cabeça naquelas coisas que o dia-a-dia tem, uma rotina de fazer café e depois oração, antes que a Secretária chegue para realizar suas tarefas costumeiras nos cuidados da casa.  Prefiro levantar mais cedo e começar assim o dia, porque as primeiras horas da manhã me proporcionam calma para começar bem o dia, e nada melhor que tomar um café sem pressa e fazer uma oração sem testemunhas.

Mas a Secretária não chegou, e ela não é daquelas pessoas que não se pode contar. Se não chegou, algo maior aconteceu. Na casa dela tem uma criança no segundo mês de vida, com suas dores de barriga, suas noites de choro, enfim, há sempre a possibilidade de uma emergência médica. Coitada da Secretária, com certeza não pode vir, lutando para resolver esses problemas da família, mas enquanto isso vou fazer minhas obrigações...

Pensei nos dois amigos que marcaram uma reunião em minha casa, às 8 horas da manhã, e eles certamente virão. Aproveitei para dar uma vista nas minhas caixas de mensagem e vigiava o relógio. As 8 horas passaram, mas eu insistia que os amigos estariam para chegar. Bem, vou cuidar de outros afazeres, lavar aquela sujeira que fiz no carro... e fiquei muitos minutos lavando a crosta de caldo seco que ontem foi entornado de uma panela. Meus amigos não chegaram, pensei “olha logicamente eles vão passar daqui a pouco”. Lá iam as 9 horas, daí já eram 9:30, “nossa mãe, eu tenho que fazer ginástica, hoje é segunda-feira, tenho que fazer exercícios três vezes por semana, é um compromisso que tenho comigo, se eu faltar hoje, amanhã ficará difícil”.

Troquei de roupa rapidamente e fui para a Academia de Ginástica. Estacionei na rua da Academia, em frente a uma oficina de móveis. Estranhei, a oficina estava fechada, mas o carro do proprietário estava estacionado sobre a calçada; além disso, parecia que um senhor ali parado estava esperando abrir a oficina, porque tinha um carro no lado contrário da rua, cheio de tábuas e móveis. 
 

Caminhei rápido para a Academia, uns 100 metros rua acima. 
 Surpresa, a Academia também estava fechada. Andei para um lado e outro, espiei lá dentro, não tinha nenhum aviso de fechamento. Por que uma academia de ginástica fecharia em plena segunda-feira? Um aviso seria obrigatório: estamos fechados por isso ou por aquilo!

Uma ideia surgiu forte como um raio: Quem sabe é luto, meu Deus? 
Sim, a ideia de luto cresceu. Uma semana atrás eu me encontrei com o Sr. Meu Amigo na Academia. Apoiado em uma bengala, ele me pareceu muito frágil. Depois de me abraçar carinhosamente e me apresentar aos funcionários, confessou: Eu queria ter 25 anos, sabe para quê? Para continuar mandando! Mas agora, os filhos mandam e eu tenho que aceitar. Fiz um investimento enorme aqui, mas lá em Brasília, de cada dez academias que abrem, oito fecham.

Trocamos abraços, elogios recíprocos, e o Sr. Meu Amigo falou ao sair: Gosto muito de você! Ao que eu respondi: Também gosto muito de você, é grande minha admiração; você é uma referência de gente honesta e trabalhadora!

É isso, estava convicto, é luto, o Sr. Meu Amigo morreu e a Academia não teve tempo de avisar. Graças a Deus que pudemos nos despedir há poucos dias!

Sem alternativa, melhor retornar para casa. Peguei o carro e contornei a quadra, entrei na avenida Olegário Maciel e logo estava passando em frente à Igreja Universal. Muita gente ali. Será que o Sr. Meu Amigo mudou de religião e entrou para a Igreja Universal; ora, tem muita gente passando para igrejas evangélicas não é?

Continuei o percurso com esses pensamentos cruzados e observei que havia muitas lojas fechadas na avenida. Ora, o problema não deve ser com o Sr. Meu Amigo, deve ser com o Prefeito. Será que é o Prefeito? Quem sabe aconteceu alguma coisa com ele, pode ter morrido, deram feriado municipal, luto municipal e está tudo fechado. Segui assim, cheguei até ao semáforo perto da Prefeitura e vi que ela estava fechada. Conclusão óbvia: é o Prefeito! O que será que aconteceu com ele?

Entrei na Rua Santiago Dantas e minha atenção voltou-se para o prédio do curso de inglês Number One, confirmando minhas graves suposições: a porta estava descerrada. Para o Number One fechar, mãe do céu! o caso é grave de morte.

Descendo a rua, vi pessoas vestidas melhor do que o usual, andando devagar, assim como quem vai a um funeral. Pensei em desviar o roteiro, passar na casa da Secretária, para saber por que não foi trabalhar, se a criancinha recém-nascida estaria passando mal.

Mas sou muito materialista, meu espírito só fica tranquilo quando meu estômago está em paz; por isso, resolvi passar no supermercado, comprar alguma coisa para o almoço. Foi quando me lembrei de ligar para uma enteada, ela e o marido são antenados, sempre plugados nas redes sociais e, certamente, saberia me dizer o que se passava na cidade.

– Olá, bom dia, estou perdendo alguma coisa?
- O queeeê?
- Por que o Number One está fechado?
- Não estou entendendo, Márcio...
- Aquela porta de aço, a porta que fecha a entrada do prédio do Number One está fechada.
Ela repetiu o que tinha falado, e eu também.
- O Number One está fechado. Vocês não estão trabalhando. Aliás, quase todas as lojas da cidade estão fechadas. O que aconteceu?
- Uai, Márcio, hoje é domingo!
Aí caiu a ficha. Gente, eu tô pirado!

Ficamos uns bons minutos conversando, muita gargalhada. Ouvi pelo telefone as risadas do marido, e ela me contou um caso de esquecimento dele, do dia em que ele acordou em um domingo, assustado porque estava atrasado para a aula.

Fazia as compras, parado na fila do açougue, e pensava uma explicação para a minha confusão, e me veio à cabeça que havia poucos dias eu estava nessa fila com a namorada, planejando um churrasco feito em casa. Será que minha cabeça anda assim, meio perdida, porque perdi a namorada? Pode ser, nossos domingos eram pacatos, mas alegres: eu cuidava do almoço e ela selecionava as músicas, punha cerveja e vinho nos copos e repartia em pedacinhos os queijos que eram reservados para esse momento especial. Eram domingos previsíveis – as caminhadas nas ruas da cidade, um copo de garapa na Feirinha do Santana, o almoço que se estendia por horas, entre músicas de rock nacional e trocas de carinho.

Deve ser isso, perdi a namorada e ando trocando as coisas; pulei o domingo e me joguei na segunda-feira para não ter que amargar doces lembranças!

Na hora de passar no caixa, vi que tinha esquecido o cartão de crédito dentro do carro. Falei pra moça, olha me dá um tempo aí, esqueci meus documentos no carro. Fui e voltei correndo, é preciso colocar cada coisa no seu lugar. A minha vida mudou, estou muito esquecido, trocando um dia pelo outro... e em cada detalhe do cotidiano lá está a ex-namorada.

Entrei no carro e saí do estacionamento. O movimento nas ruas era grande, mas não tinha nada de segunda-feira, não havia agitação e os pedestres pareciam retornar de rezas dominicais, e não de funerais. No som do carro, uma música de Kenny Rogers & Bee Gees - 
You and I. Sou apaixonado por essa versão fantástica, esses ícones da música, e a letra fala de um amor profundo, um amor que viverá até o oceano se transformar em areia.

No better love will be there
When you turn around
I'll be living for you till the ocean turns to sand


Dirigi para casa ouvindo You and I, não para uma segunda-feira de trabalho, mas para um domingo vazio. Uma leve tristeza zombava de mim, querendo me dizer que meu oceano se transformara em areia: será que é porque perdi a namorada?


 

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