1 mai 19h50

A indústria na Paracatu da primeira metade do século passado

Assim resumira o escritor memorialista Olímpio Gonzaga (1910, p. 53) sobre a atividade industrial em Paracatu há pouco mais de 100 anos: “Infelizmente, talvez devido à carência de transporte com que lutam seus habitantes, a indústria agrícola vegeta no município, sem estímulo algum, seguindo méthodos [sic] antigos e rotineiros”, de forma a indicar a predominância, por aqui, de uma agroindústria bastante simples naquele período.  
Se por um lado faltavam recursos e infraestrutura para o desenvolvimento de fábricas mais robustas à época, por outro, o chamado imposto sobre indústria e profissões, deixou vasto acervo fiscal que viabiliza uma maior compreensão histórica sobre o abastecimento regional e a prática de comércio com outros municípios.
Preciosíssimo códice que relaciona as viagens por meio do vapor a partir do Porto Burity, no Rio Paracatu, até a cidade de Pirapora, registra em sua folha de número 1 verso, no dia 30 de outubro de 1924, a exportação de couros, assúcar [sic], manteiga e queijos por parte de Quintino Vargas e Cia e do Sr. Antônio Caetano de Souza, através da Empresa Navegação do Paracatu. Daqui também saíam xarque [sic], manona, algodão e arroz, conforme o mesmo manuscrito.
Entre os documentos que melhor retratam o passado da indústria local, está uma relação de contribuintes em atraso com seus pagamentos à Câmara Municipal de Paracatu, no ano de 1908, que denuncia a existência de pelo menos 45 engenhos de fabricação de rapaduras, açúcar e cachaça em tal circunstância, em diferentes localidades, como no Arraial de São Sebastião e Santa Rita.
A produção de laticínios, por sua vez, também consta da documentação conservada no fundo Câmara Municipal, parte integrante do Arquivo Público de Paracatu. O manuscrito denominado Lançamento do Imposto de Indústria e Profissões, datado de 1926 e pertencente a esse acervo, tributa o Sr. Francisco Alves de Souza e Silva em 76 mil réis quanto à fabricação de manteiga e criação de gado no lugar denominado Alegria.
Outra atividade que se pode destacar durante a primeira metade do século XX é a do cortume, cujo couro aqui produzido era em parte empregado na fabricação de calçados e selas para o consumo local, e em parte era vendido a atravessadores, que o exportavam para outras regiões. Constata-se, a partir de outras fontes, que essa atividade estabelecera-se mais tarde no lugar chamado Chapadinha, bairro de Paracatu.
A edição nº 1 do Paracatu-Jornal publicada em 06/09/1931 traz uma notícia bastante relevante para a população destes rincões do Noroeste de Minas Gerais: “Por esforços dos nossos conterrâneos, Srs. Maurício e Oscar Waschmuth, diligentes industriais em nosso meio, acaba de ser montada uma máquina destinada ao beneficiamento de arroz, nesta cidade”. Um grande sinal de progresso em um período marcado pela prevalência de manufaturas no setor produtivo local.
Constata-se uma considerável evolução na indústria em Paracatu, especialmente quando observados dados da Agência Municipal de Estatística do ano de 1947, que dão conta da operação de centenas de fábricas de rapaduras, outras dezenas de produção de açúcar, aguardente, polvilho, farinha de mandioca e algumas unidades de olarias, sapatarias, ferrarias e marcenarias. Depreende-se que tal melhoria deu-se principalmente pela diversificação produtiva.
A indústria de Paracatu na primeira metade do século XX foi, portanto, marcada especialmente pela produção de rapadura, açúcar, cachaça e manteiga, que além de suprir a demanda local, também era exportada por meio dos rios Paracatu e São Francisco para diferentes destinos do país.


(*) Carlos Lima é graduado em Arquivologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBa), é Pós-Graduado em Oracle, Java e Gerência de Projeto e é consultor em organização de arquivos e memória empresarial.

Referências:

BRASIL. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. AGÊNCIA MUNICIPAL DE ESTATÍSTICA. Estabelecimentos Industriais do Município Paracatu. 1947. 1fl.
GONZAGA, Olímpio M. Memória histórica de Paracatu. Uberaba: Typ. Jardim e Cia, 1910. 135p.
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Lançamento do Imposto de Indústria e Profissões. 1926, 1fl.
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Registro Empresa de Navegação do Paracatu.Paracatu: 1924. 1 códice
PARACATU. CÂMARA MUNICIPAL DE PARACATU. Relação de contribuintes em atraso com seus pagamentos à Câmara Municipal de Paracatu. 1908. 1fl.
PARACATU-JORNAL. Paracatu, p. 2-2. 06 set. 1931.

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