29 abr 2015 21h48

Gonzaguinha, Gilvan e o seu sonho de amor, arte, cultura e educação...

          À primeira vista, aparenta ser um projeto simples, de autoria de um político simples e humilde, redigido em poucas linhas, que tramitou sem alarde. Analisado em sua essência, justo e correto é concluir que ele traz em seu bojo um profundo significado social, ideológico, filosófico e um reencontro de Paracatu com sua história.  O vereador Gilvan Rodrigues Oliveira, do Solidariedade (SDD), deu uma tacada certeira e conseguiu fazer com que a Câmara de Paracatu aprovasse recentemente o projeto 127/2014, da sua autoria, que criou a Semana Municipal das Artes e Cultura.

          Vamos ao contexto histórico: o processo de povoamento de Paracatu começou lá pelos idos de 1734, quando aqui chegaram as bandeiras comandadas por José Rodrigues Froes e Felisberto Caldeira Brant. A exaustão mineral, então, era um fenômeno duplamente dramático: para os mineradores das Minas Gerais, condenados à ruína e ameaçados pela famigerada “derrama” ou cobrança do quinto (20%) de um ouro que fora abundante, mas já não existia mais; e para a Coroa Portuguesa (o Brasil ainda era uma colônia de Portugal), que queria porque queria e precisava desesperadamente arrecadar tributos.

          A descoberta do ouro em Paracatu, assim, foi a salvação da pátria, das duas pátrias. O antigo arraial, em curto lapso temporal, por isso, transformou–se em importante centro cultural e econômico, devido ao que, a 20 de outubro de 1798, foi elevado à categoria de Vila de Paracatu do Príncipe, com autonomia política e administrativa. O traço principal e característico do seu povo, década após década, século após século, apesar da opulência aurífera, foi o gosto pelas coisas da arte e da cultura. Com o seu projeto, Gilvan Rodrigues, em parte, celebra e patrocina um reencontro entre Paracatu e seu povo com a sua vocação histórica secular.
          No que se refere ao contexto social, Paracatu vem chorando lágrimas de sangue atualmente. A matança humana, que produz vítimas jovens em estonteante e crescente escalada, diante da letargia das autoridades políticas com a sua segurança pública falha e nunca priorizada, passou a macular a imagem secular de um povo, antes tido e admirado como culto e civilizado. A repressão pura e simples, como se sabe, não resolve o problema. E Gilvan Rodrigues recorre a um conceito sociológico e filosófico novo: investir em arte, cultura e educação como forma de abrandamento de muitas das mazelas sociais, matança humana no meio.
          Ex-cabo da Polícia Militar, evangélico comprometido, professor voluntário de capoeira e incentivador cultural, Gilvan há anos atua de graça junto às comunidades mais sofridas da sociedade local. Sabe que as drogas motivam cerca de 80% dos homicídios que abundam em Paracatu. Arrancou desse mundo, muitas vezes sem volta, vários jovens e crianças. E tem autoridade moral e prática para dizer que, na luta contra esse inferno dantesco, arte, cultura e educação funcionam sim sinhô e devem ser utilizadas de todas as maneiras possíveis e imagináveis!
          Trecho da letra da música “É!”, do saudoso Gonzaguinha, antigo sucesso da MPB: A gente quer carinho e atenção/ A gente quer calor no coração/ A gente quer suar, mas de prazer (...) / É! / A gente quer viver pleno direito/ A gente quer viver pleno respeito/ A gente quer viver uma nação/ A gente quer é ser um cidadão.
 

Do Toco do Pecado – Comentários de Florival Ferreira

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