26 nov 2009 03h37

Não, Jesus Cristo não é minha paz!, por Tarzan Leão

O meu encontro pessoal com Jesus Cristo fora há exatos trinta anos, eu então um adolescente de catorze. Um encontro que, em momentos cruciais da minha vida, eu cheguei a conjeturar que melhor nunca houvesse acontecido. Isso, porque, nunca mais o meu espírito aquietou-se, nunca mais vivi em paz.

Anos mais tarde, li dois livros, por indicação de frei Sérgio Lobo, op, que aumentou ainda mais a minha inquietude: “Em seus passos o que faria Jesus?” (In his steps), de Charles M. Sheldon, escrito em 1896 e “Projeto de vida radical”, de frei Mateus Rocha, op, ambos sobre o seguimento de Jesus Cristo. Esses livros, somados às leituras que eu já fazia de outros autores igualmente inquietos, perturbaram ainda mais o meu espírito já atribulado.

Francamente, não compreendo as pessoas que falam viver em paz depois que descobriram a Jesus Cristo. Não sei a que modelo de paz elas se referem. Quem leu os Evangelhos e o compreendeu em sua radicalidade ou leu um desses dois livrinhos que citei logo acima, sabe exatamente do que estou falando. O encontro com Jesus Cristo, quando verdadeiro, é sempre avassalador. Vejam o que ocorreu a Saulo, um perseguidor de cristãos de primeira linha. A sua vida deu uma guinada, mudaram todos os seus paradigmas, de maneira que, de perseguidor, passou a ser perseguido e trabalhou, freneticamente, anunciando a Boa Notícia a todos os povos da Terra, até ser supliciado em nome do Cristo a quem antes perseguira. Lembremo-nos também de Francisco de Assis, de Martinho Lutero e tantos outros. Esses homens foram, antes de tudo, atormentados permanentemente por Jesus. Cito ainda Teresa d’Ávila e Catarina de Sena, duas místicas cristãs, para não ficar apenas em varões.

Certamente há paz em Jesus de Nazaré. Mas, seguramente, não é a paz dos campos-santos; aquela paz letárgica, quase embriagadora, anestesiante; uma paz a confundir-se com o ópio. Quem se sente assim, me arrisco em dizer que ainda não conheceu a Jesus, e que adora a outro deus, um falso deus, bem ao gosto de nossas fraquezas e idiossincrasias. Um deus que não questiona, que pouco perturba e que nada exige. Pois, como viver em paz se a cada instante me vem à mente a pergunta: e se Jesus estivesse em meu lugar, o que faria Ele? Esta interrogação aparece nos momentos mais inusitados, como por exemplo, agora, enquanto escrevo. E vem à tona, principalmente, diante das injustiças; da pobreza gritante que leva tantos irmãos nossos a viverem em condições subumanas. Cruzaria os braços? Diria: isso não é problema meu, é preguiça dessa gente? O que faria o Cristo agora, em meu lugar, diante de tudo o que vejo à minha volta?

O verdadeiro crente, entendendo-se o uso do termo “crente”, para aquele que acredita independentemente a que Igreja cristã esteja vinculado, ao invés de viver “na paz de Cristo”, vive na inquietude do Seu Espírito. Sofre com os que sofrem, se alegra com os que se alegram. Fica indignado diante da injustiça, de qualquer injustiça, aconteça onde acontecer. E grita, e, qual profeta, denuncia sempre que necessário se fizer.

Jesus Cristo pode até ser a minha paz, mas, é uma paz inquieta. Uma paz que me mantém sempre alerta, atento ao cosmo, às contradições desse mundo dominado pelo ódio, pela discriminação, pelo desespero, pela fome, pela dor. Um mundo que, parece, ainda não O conheceu. Ainda não O viu na pessoa que sofre tal vira o Segundo Isaías (53, 3-4), quando profetizara que Ele: “Era o mais desprezado e abandonado de todos, homem do sofrimento, experimentado na dor, indivíduo de quem a gente desvia o olhar, repelente, dele nem tomamos conhecimento.” É da pessoa desse mesmo Cristo que o profeta se refere, esse Cristo que “estava sendo traspassado por causa de nossas rebeldias, estava sendo esmagado por nossos pecados. O castigo que teríamos pagar caiu sobre ele, com os seus ferimentos veio a cura para nós.”

Por isso mesmo a Sua paz, repito, não é a paz dos campos-santos. Não é essa paz que nos idiotiza, nos embriaga, deixando-nos insensíveis diante do mal. A Sua paz nos instiga, nos adverte, nos impulsiona a construir um novo mundo onde não haja guerra, nem fome e nem dor. E porque esse novo mundo ainda não chegou, Ele não me deixa viver em paz!
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