8 out 2009 11h08

Considerações acerca de Deus

A crença em um único Deus é uma das questões centrais do Antigo Testamento. A ideia vai aparecer com Abraão e, de maneira sistemática, no livro de Êxodo (Shemot), com a solene proclamação do Decálogo. Mas, vai insistentemente percorrer todo o Pentateuco até estruturar-se enquanto uma teologia. E será, em momentos cruciais da história de Israel, tema constante na boca dos Profetas. Tudo isso, porque se vivia num mundo politeísta no qual a crença em muitos deuses era bastante comum, de modo que todos estavam diariamente expostos aos perigos da idolatria, que é a prática de adorar falsos deuses.

Há em Deuteronômio (Devarim) uma das mais belas orações da Torah (que significa ensinamento, Lei), que é o Shemá Israel. É a leitura bíblica que os religiosos católicos leem aos domingos durante as Completas (oração da noite) e que, por sua vez, todo judeu faz ao levantar e antes de deitar: “Escuta, Israel! O Eterno é nosso Deus, o Eterno é um só! E amarás ao Eterno, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas posses. E estas palavras que eu te ordeno hoje estarão sobre o teu coração, e as inculcarás a teus filhos, e delas falarás sentado em tua casa e andando pelo caminho, ao deitar-te e ao levantar-te. E as atarás como sinal na tua mão, e serão por filactérios (Téfilin) entre os teus olhos, e as escreverás nos umbrais (Mezuzá) de tua casa e nas tuas portas.” O texto de rara beleza nos exorta a sempre lembrar do nosso pertencimento ao Deus Único, independentemente de quaisquer condições. Entenda-se por pertencimento um total despojamento de nós mesmos, principalmente de nossos desejos e vontades.

Popularizou-se muito na atualidade certa teologia da prosperidade. No seu bojo está a ideia de um deus provedor, muitas vezes até em contradição ao Deus que nos foi revelado nas Escrituras. O deus apregoado por essa corrente teológica é uma deidade puramente taumaturga, muito mais preocupada em resolver nossos problemas meramente humanos, alguns deles fruto de nossas próprias limitações. Ora, esquecem-se eles que o problema de Deus é, por assim dizer, muito mais escatológico do que ontológico. Ou seja, devo procurar a Deus em busca de conforto espiritual com vistas a um projeto de salvação da minha alma, e não para salvar a situação da minha empresa, curar essa ou aquela doença que pode muito bem ser resolvida através do SUS (Sistema Único de Saúde).

Essa falsa teologia disseminou na sociedade contemporânea a ideia de um deus-muleta, que serve tão-somente para curar nossas enfermidades – e também para rechear a conta bancária de muita gente. Os fazedores de milagres estão diuturnamente nas telas da TV exibindo as suas façanhas. Eles curam os mais diversos tipos de doença, levantam empresas falidas e restauram casamentos. A impressão que me dá é que esses bem intencionados líderes jamais leram o livro de Jó.

Jó, diz a Sagrada Escritura, “era íntegro e reto, temia a Deus e mantinha-se afastado do mal. Tinha sete filhos e três filhas. Possuía também sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas, e servos em grande quantidade. Era, pois, o mais rico entre todos os habitantes do Oriente.” Porém, eis que num certo dia Jó perdeu tudo: filhos e filhas, casa, animais, campos, tudo o que possuía enfim. “Então Jó levantou-se, rasgou as vestes, rapou a cabeça, caiu por terra e, prostrado, em adoração, falou: “Nu, saí do ventre de minha mãe e nu, voltarei para lá. O SENHOR deu, o SENHOR tirou; como foi do agrado do SENHOR, assim aconteceu. Seja bendito o nome do SENHOR!”

Ora, o amor a Deus não pode, ou pelo menos não deve, estar vinculado à nossa condição terreal. Ele deve, para ser verdadeiro, ser sempre incondicional. O milagre se realiza não somente quando Deus me cura de determinado mal – até porque a medicina existe para isso: curar nossas doenças –, mas quando eu vivo o seu amor e sou um testemunho apesar da minha enfermidade. Ainda que eu seja pobre, ainda que não tenha o que comer e o que beber e nem onde morar, posso ser um testemunho da graça santificante de Deus entre os humanos. Porque o amor de Deus, ou a Deus, não está vinculado às contingências da vida. Vai muito além. E Jó é sempre uma boa resposta aos que colocam o nosso relacionamento com Deus vinculado à prosperidade, à saúde e à estabilidade econômica.

Mais ainda: de Deus basta querer o Seu Reino, e tudo o mais virá por acréscimo. Até porque nossas cobiças e vontades nem sempre refletem o que realmente o Eterno quer para nós, porque somos, muitas vezes, movidos por anseios mesquinhos. Talvez por isso o décimo mandamento seja uma condenação peremptória a qualquer tipo de desejo: “Não cobiçarás a casa do teu próximo. Não cobiçarás a mulher do teu próximo, nem seu escravo, nem sua escrava, nem seu boi, nem seu jumento, nem coisa alguma do que lhe pertença”.

Isso, porém, não nos coloca numa condição de meros seres passivos no processo. O que o texto sagrado vem nos lembrar é que nem sempre aquilo que queremos para nós é legítimo, ainda que seja o restabelecimento de uma grave enfermidade. Há interesses recônditos dos quais nem sempre temos plena consciência e que governam a nossa vida afastando-nos do Deus de Abraão, de Isaac e Jacó, e que nos foi revelado por Jesus Cristo, seu filho único, nosso Senhor e Salvador.
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