13 ago 2009 16h55

Sarney somos todos nós

Sedenta que é a sociedade pelo sacrifício, há sempre alguém ardendo na fogueira pronto para ser devorado. Escolhe-se, às vezes, uma vítima ainda que aleatoriamente, para purgar nossos pecados, aplacar as nossas culpas. A vítima pode ser um inocente (cordeiro) ou mesmo um culpado (bode). Para a sociedade isso pouco importa. O que conta é que haja uma vítima.

Há dias o presidente do Senado Federal, José Sarney, sangra terrivelmente diante de seus pares e da sociedade brasileira envolto num mar de denúncias que parecem não ter fim. Talvez movida pelo desejo de passar o país à limpo, a imprensa brasileira de tempos em tempos escolhe alguém, preferencialmente um político, para esmiuçar-lhe a vida, escancarar portas e janelas, mostrar todos os seus segredos mais recônditos, ainda que estes estejam trancados a sete chaves em bancos no exterior.

Sarney sangra e ninguém faz nada para salvar-lhe a vida e a reputação. Quando bate a crise, não há marqueteiro que consiga desviar o olhar da opinião pública para outro alvo. Nessa mesma linha de raciocínio, de nada adiantou o presidente Lula fazer a sua defesa, pedindo respeito ao ex-presidente Sarney, pois diariamente novas denúncias vêm a público complicando ainda mais a sobrevivência política do presidente do Senado.

Esta é uma sociedade cruel. Quando menos percebemos, volta à tona a nossa ancestralidade sacrificial. Logo cedo, ligamos o computador e vamos para a internet visitar os sites de notícias à procura de fatos novos. Vemos um Sarney trêmulo, quase senil, tentando, qual afogado, agarrar-se a um galho de árvore qualquer para salvar a própria vida que sucumbe em um mar de lama. E nos admiramos, e até nos estarrecemos, quando lemos em velhos livros de história que na Europa medieval era um espetáculo à parte assistir aos hereges queimarem nas fogueiras da Santa Inquisição.

O Brasil está mergulhado numa crise ética e moral faz anos, e parece não saber como sair dela. A imprensa escolheu a classe política como bode expiatório dessa crise. Talvez porque sabe, melhor do que ninguém, que não se pode abrir a Caixa de Pandora toda de uma vez sob o risco de não restar pedra sobre pedra. Por isso outras instituições igualmente podres pouco ou nada são exploradas. Mas é estranho como a sociedade usa sempre de velhos artifícios para superar suas crises miméticas. E o mais antigo é o recurso ao infalível bode expiatório. Sentimos-nos aliviados, nossas culpas expiadas, só de ver alguém ser achincalhado por pecados e defeitos que nos são familiares, mesmo quando são em menores proporções. Matamos no outro exatamente aquilo que menos gostamos em nós mesmos.

Quantos bodes já liquidamos da política brasileira só nos últimos dez anos? Muitos. Os mais expressivos: Jáder Barbalho, Orestes Quércia, Hildebrando Pascoal, Paulo Maluf, Roberto Jefferson, José Dirceu, Severino Cavalcante. Agora José Sarney. Mas o que mudou substancialmente na política brasileira nessa década? Conseguimos melhorar nossa representatividade? Pode deixar que respondo: Não! E quer saber por que não? Também respondo: porque continuamos os mesmos. Nós, o povo, mudamos nossos representantes mas permanecemos exatamente os mesmos. Enquanto estudantes, “colamos” na escola mas ao mesmo tempo estranhamos quando algum político desvia verba pública. Sem contar que quase sempre votamos por interesses meramente pessoais, às vezes à espera de um favor, de um emprego, enfim. Dito isto, não há porque tirar Sarney da presidência do Senado enquanto não estivermos dispostos a mudar nossa postura e instaurar uma nova ética baseada no cuidado e na responsabilidade para com a Nação, ainda que nossos interesses pessoais sejam temporariamente contrariados.
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