1 jun 10h48

Matutações sobre a corrupção

Tácito Coutinho
João Batista... Michele Moran alguns meses atrás, num Congresso da RCC, na Canção Nova, profetizou que os “Joões” Batista precisavam se levantar... Li um artigo da teóloga Maria Clara Bingemer sobre o “Precursor”... Fiquei matutando... Desculpem o texto mais longo que o habitual...
João Batista - “maior do que todos os filhos de mulher” - é a figura do profeta denuncia a corrupção em todas suas formas, não se deixando atingir por esta “praga” que corrói a dignidade e a vida santa e que leva à idolatria das falsas divindades e não o Deus verdadeiro. Sua profecia tem dois eixos: a corrupção e a idolatria.
O profeta de palavras de fogo pregou a conversão ao povo infiel e denunciou a corrupção do rei Herodes que, covarde, como em geral são os corruptos, o prendeu. Quem venceu foi o ódio de Herodíades, que conseguiu, através de Salomé, a cabeça do Batista em uma bandeja de prata.
Em tempos de tamanha corrupção, faz-nos bem olhar para aqueles que a denunciaram. Do deserto já se ouvia a voz de João Batista clamando por conversão e mudança de vida. Seu olhar de profeta via a corrupção acontecendo e percebia que a vida se encontrava ameaçada pela idolatria. Seu apelo à conversão, mudança de mentalidade e comportamento, é atual e necessário.
Corrupção, do latim “corruptio”, tem o sentido de “deterioração”, “putrefação”, “adulteração do original”. A corrupção é uma possibilidade para o comportamento humano. Em sua ambiguidade, o ser humano, “deseja o bem, mas não o pratica; e não deseja o mal, mas o pratica” – Rm 7,19. O Ser humano é dividido e possui inclinações para mais de uma direção, portanto, é desafiado a exercitar o discernimento e a liberdade a cada passo e minuto.
A idolatria é o culto e o serviço prestados a algo que é falso. O ídolo é uma representação da divindade e se faz objeto de culto, usurpando o lugar de Deus e recebendo em vez d´Ele a adoração ou o culto.
O principal problema na idolatria é a traição. Não se trata de um erro religioso, mas ético. O núcleo da idolatria são os valores, os critérios e o comportamento moral. A idolatria é um “estilo de vida”, não só uma visão religiosa. Por esta razão, as metáforas bíblicas da idolatria são o adultério e a desonestidade sob todas as suas formas, inclusive a política.
Na Sagrada Escritura, a corrupção é próxima à idolatria porque, seja ela moral ou política, é sempre uma traição à verdade, porque se trata de pautar o comportamento, as atitudes, a ética sobre bases que não são verdadeiras. Adora-se o “não verdadeiro”. E essa adoração a “não verdade” transborda nos frutos “podres” da corrupção, sendo o pior deles a justificação do roubo dos mais vulneráveis e a exploração dos pequenos e pobres.
Hoje a corrupção idolátrica não é tanto a luxúria, embora exista, mas sim a cobiça, o enriquecimento ilícito e a justiça venal. O Estado, aqui como “entidade com poder soberano para governar um povo”, cujas funções são exercidas pelo “corpo político”, é corrupto, e, portanto, idólatra. Seus gestores, salvo exceções, deformam o sentido do “bem comum” vivendo na mentira, à margem da lei e na espoliação descarada e iníqua dos mais pobres e vulneráveis.
Acumulam riquezas incalculáveis à custa da exploração daqueles que mal têm o que comer e que trabalham de sol a sol para ganhar um salário inferior a suas necessidades. Corruptos, são igualmente idólatras. Amam com verdadeira adoração o prestígio e as coisas materiais e as erigem em ídolos subvertendo os verdadeiros valores. Transformam o poder, o mercado, o lucro, a riqueza em “um deus” e vivem da e na crença nesse deus.
“A corrupção sempre encontra o modo para se justificar, apresentando-se como a condição ‘normal’, a solução de quem é ‘esperto’, o caminho para atingir os seus objetivos. Tem uma natureza contagiosa e parasitária, porque não se nutre do que de bom produz, mas do que subtrai e rouba. É uma raiz venenosa que altera a sã concorrência e afasta os investimentos. Enfim, a corrupção é um ‘habitus’ construído sobre a idolatria do dinheiro e da mercantilização da dignidade humana” – Papa Francisco.


Que o testemunho João Batista nos encoraje a buscar a justiça e a verdade; que nos inspire a honestidade, a não nos “vender ao mais fácil” ou aos “interesses privados”, e assim construirmos um mundo, o Brasil, menos corrupto e putrefato como herança para nossos netos.

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