4 mar 11h46

Pimentel, Afonso Arinos e o Buriti Perdido

José Augusto Campetti Nieto
O governador Fernando Pimentel (PT) sancionou em 13/01/2018 a Lei nº 22.919/18, que passa a permitir corte de buritis solitários, dissociados de veredas. Para o governador e legisladores, um buriti perdido, tal qual o imortalizado na obra do paracatuense Afonso Arinos, pode ser derrubado. Enquanto o Israel Pinheiro em 1959 cravava um buriti na frente da futura sede do Governo do Distrito Federal, o atual governador de Minas Gerais vilipendia o símbolo das Gerais.
O paracatuense Afonso Arinos e o Buriti Perdido
Afonso Arinos (Afonso Arinos de Melo Franco), advogado, contista, romancista, nasceu em Paracatu, MG, a 1º de maio de 1868, e faleceu em Barcelona, Espanha, a 19 de fevereiro de 1916.
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Era filho de Virgílio de Melo Franco e de D. Ana Leopoldina de Melo Franco. Fez seus primeiros estudos em Goiás, para onde fora transferido seu pai, como juiz. Os preparatórios tiveram lugar em São João del Rei no estabelecimento de ensino dirigido pelo Cônego Antônio José da Costa Machado, e no Ateneu Fluminense, do Rio de Janeiro.
Em 1885 iniciou o curso de Direito em São Paulo, concluído quatro anos mais tarde. Desde o tempo de estudante manifestou Afonso Arinos forte inclinação para as letras, escrevendo alguns contos.
Depois de formado foi com a família para Ouro Preto, então capital da Província de Minas Gerais. Concorreu a uma vaga de professor de História do Brasil, em cuja disputa por concurso obteve o 1º lugar.
Foi um dos fundadores da Faculdade de Direito de Minas Gerais onde lecionou Direito Criminal.
Ver imagem originalCasa onde nasceu Afonso Arinos
Durante a Revolta da Armada (1893-1894), abrigou em sua casa em Ouro Preto alguns escritores radicados no Rio de Janeiro que, suspeitos de participação naquele movimento, haviam buscado refúgio no interior de Minas Gerais, entre outros, Olavo Bilac e Carlos Laet.
Afonso Arinos teve vários trabalhos publicados, na década de 1890, na Revista Brasileira e na Revista do Brasil. Convidado por Eduardo Prado assumiu, em 1897, a direção do Comércio de São Paulo.
Em fevereiro de 1901 foi eleito sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Foi eleito para a Academia Brasileira de Letras na vaga de Eduardo Prado e recebido por Olavo Bilac.
Em viagem à Europa, adoeceu no navio e veio a falecer em Barcelona em 19 de fevereiro de 1916.
Distinguiu-se Afonso Arinos em nossa literatura como um contista de feição regionalista, fato comprovado pelos seus livros Pelo sertão e o romance, baseado na Guerra de Canudos e assinado com o pseudônimo de Olívio de Barros, Os jagunços. Escreveu, também, os dramas O contratador de diamantes e O mestre de campo. Depois de sua morte foram publicados Lendas e tradições brasileiras e Histórias e paisagens.
Da obra de Afonso Arinos e de seu estilo escreveu Lúcia Miguel Pereira:
“Possuía a qualidade mestra dos regionalistas: o dom de captar a um tempo, repercutindo nas outras, prolongando-se mutuamente, as figuras humanas e as forças da natureza.”
Segundo ocupante da cadeira 40 da Academia Brasileira de Letras, foi eleito em 31 de dezembro de 1901, na sucessão de Eduardo Prado, e recebido em 18 de setembro de 1903 pelo acadêmico Olavo Bilac. Recebeu o acadêmico Artur Jaceguai. É considerado o primeiro escritor regionalista do Brasil
O Buriti Perdido
Ver imagem originalBuriti Perdido, quadro em  acrílico sobre madeira, de 2012, do pintor paracatuense, de Flávio Costa, retrata o Buriti Perdido de Arinos
Durante a construção de Brasília, a palmeira do buriti foi escolhida como símbolo da cidade. Em 1959, inspirado no poema “Um buriti perdido”, de Afonso Arinos, o engenheiro Israel Pinheiro determinou que fosse plantada uma muda da árvore na frente da futura sede do Governo do Distrito Federal. A muda morreu, mas, em 1969, houve uma segunda tentativa e, desta vez, a palmeira conseguiu se desenvolver. No local, foi inaugurada a Praça do Buriti. E, em 1985, aquela árvore foi tombada.
Um buriti perdido
Afonso Arinos
Velha palmeira solitária, testemunha sobrevivente do drama da conquista, que de majestade e de tristura não exprimes, venerável epônimo dos campos!
No meio da campina verde, de um verde esmaiado e merencório, onde tremeluzem às vezes as florinhas douradas do alecrim do campo, tu te ergues altaneira, levantando ao céu as palmas tesas, – velho guerreiro petrificado em meio da peleja!
Tu me apareces como o poema vivo de uma raça quase extinta, como canção dolorosa dos sofrimentos das tribos, como o hino glorioso de seus feitos, a narração comovida das pugnas contra os homens de além!
Por que ficaste de pé, quando teus coevos já tombaram?
Nem os rapsodistas antigos, nem a lenda cheia de poesia do cantor cego da ilíada comovem mais do que tu, vegetal ancião, cantor mudo da vida primitiva dos sertões!
Atalaia grandioso dos campos e das matas – junto de ti pasce tranquilo o touro selvagem e as potrancas ligeiras, que não conhecem o jugo do homem.
São teus companheiros, de quando em quando, os patos pretos que arribam ariscos das lagoas longínquas em demanda de outras mais quietas e solitárias, e que dominas, velha palmeira, com tua figura erecta, queda e majestosa com a de um velho guerreiro petrificado.
As varas de queixadas bravias atravessam o campo e, ao passarem junto de ti, talvez por causa do ladrido do vento em tuas palmas, redemoinham e rangem os dentes furiosamente, como o rufar de tambores de guerra.
O corcel lobuno, pastor da tropilha, à sombra de tua fronde, sacode vaidosamente a cabeça para arrojar fora da testa a crina basta do topete, que lhe encobre a vista; relincha depois, nitre com força apelidando a favorita da tropilha, que morde o capim mimoso da margem da lagoa.
Junto de ti, à noite, quando os outros animais dormem, passa o canguçu em monteiria; quando volta, a carne da preá lhe ensanguenta a fauce e seu andar é mais lento e ondulante.
Talvez passassem junto de ti, há dois séculos, as primeiras bandeiras invasoras; o guerreiro tupi, escravos dos de Piratininga, parou então extático diante da velha palmeira e relembrou os tempos de sua independência, quando as tribos nômades vagavam livres por esta terra.
Poeta dos desertos, cantor mudo da natureza virgem dos sertões, evoé!
Gerações e gerações passarão ainda, antes que seque este tronco pardo e escamoso.
A terra que te circunda e os campos adjacentes tomaram teu nome, ó epônimo, e o conservarão.
Se algum dia a civilização ganhar essa paragem longínqua, talvez uma grande cidade se levante na campina extensa que te serve de soco, velho Buriti Perdido. Então, como os hoplitas atenienses cativos em Siracusa, que conquistaram a liberdade enternecendo os duros senhores à narração das próprias desgraças nos versos sublimes de Eurípedes, tu impedirás, poeta dos desertos, a própria destruição, comprando teu direito à vida com a poesia selvagem e dolorida que tu sabes tão bem comunicar.
Então, talvez, uma alma amante das lendas primevas, uma alma que tenhas movido ao amor e à poesia, não permitindo a tua destruição, fará com que figures em larga praça, como um monumento às gerações extintas, uma página sempre aberta de um poema que não foi escrito, mas que referve na mente de cada um dos filhos desta terra.
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  • Praça do Buriti, em Brasília: “Então, talvez, uma alma amante das lendas primevas, uma alma que tenhas movido ao amor e à poesia, não permitindo a tua destruição, fará com que figures em larga praça, como um monumento às gerações extintas.”






Bibliografia de Afonso Arinos
Pelo sertão, 1898.
Os jagunços, sob o pseudônimo de Olívio de Barros, 2 vols., 1898.
Notas do dia, 1900.
O contratador de diamantes, 1917.
A unidade da Pátria, 1917.
Lendas e tradições brasileiras, 1917.
O Mestre de Campo, 1918.
Histórias e paisagens, 1921.
Obra Completa, 1969.

Fonte: Academia Brasileira de Letras / O Movimento

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