29 jun 2016 02h29Atualizado em 29 jun 2016 02h52

Nível de contaminação por arsênio em Paracatu está muito além do considerado ideal, aponta estudo

Lorranne Marques
“Pesquisadores do CETEM retornaram à Paracatu neste ano, em reunião a portas fechadas e voltaram atrás nos resultados demonstrados em 2014, demonstrando que os resultados verdadeiros estão cinco vezes maior que os anteriores e existe contaminação por arsênio, mas nenhuma autoridade tomou providências”, grave denúncia feita hoje (28) pelo geólogo, professor e pesquisador Márcio José dos Santos durante audiência pública na Câmara Municipal. Vale ressaltar que ninguém do Poder Executivo, do Ministério Público bem como da Kinross, nenhum representante sequer se fez presente na reunião.
A audiência foi proposta para que Márcio apresentasse o relatório sobre seu estudo, realizado no ano passado, de forma independente (sem qualquer verba de empresas ou governo) sobre as águas no Rio Santa Rita e afluentes em relação aos índices de contaminação de arsênio provocados pela exploração da mineradora Kinross.
O geólogo afirmou ainda que autoridades que deveriam lutar pelo bem da população, estão cientes do grave problema, mas não tomaram as providências e nem alertaram a sociedade. Afirmou que está preparado para assumir as consequencias de suas denúncias e entregou aos presentes uma “Carta aberta à população de Paracatu”, onde diz que no dia 22 de março deste ano os pesquisados do CETEM, do Instituto Evandro Chagas e da UNICAMP estiveram em uma reunião a portas fechadas com o prefeito, o vice-prefeito, a secretária de saúde, representante do Ministério Público de Minas Gerais e do Ministério Público Federal.
Segundo o denunciante, nesta reunião, os pesquisadores responsáveis teriam esclarecido que houve erro nos resultados apresentados em 2014, os trabalhos teriam sofrido interferência de falha no equipamento que oscilava quando “esquentava” e após reanálise, confirmou-se a média de 15 μg/L na população paracatuense. Esse valor, cinco vezes maior que o demonstrado na época, e a própria equipe sugeriu a instalação no município de um programa de monitoramento dos níveis de arsênio na população através da Rede de Saúde, mas que as autoridades nada fizeram.  (Confira a Carta nas fotos abaixo).
Nesta pesquisa, que analisou amostras de 878 pessoas, ainda teriam sido identificadas 03 pessoas com nível de arsênio acima de 100 μg/L e 10 pessoas apresentaram nível de arsênio superior a 50 μg/L, sendo que o valor de referência é de 10 μg/L.
 
Estudo próprio
O estudo do Dr. Márcio José considerou o Ribeirão Santa Rita e foram analisadas águas (superficiais e subterrâneas), solo fluvial e moradores.
Foram 09 amostras de águas superficiais e 06 amostras de águas subterrâneas (cisternas). O resultado em todas as amostras é superior ao limite legal de 10μ/L estabelecido pela Portaria 2914/2011, Ministério da Saúde. Nas duas amostras do solo fluviais o valor de referencia é de 15 μ/L (valor de prevenção), porém, a pesquisa teve como resultado 35 e 37 μ/L.
Ou seja, todos os pontos amostrados estariam com teores de arsênio acima dos limites legais.
O levantamento ainda acrescentou uma amostra coletada em um canal que sai da área de contenção de efluentes da Barragem do Santo Antônio que apresentou arsênio na concentração de 22 μg/L.  Outro ponto coletado foi no Córrego Santo Antônio, em ponto 500 m abaixo da barragem de rejeito, com 22 μg/L, o que demonstra a existência de uma fonte de contaminação ativa oriunda da barragem. Em suma, a barragem Eustáquio já estaria liberando poluentes para a bacia do Santa Rita.
O estudioso ainda fez uma previsão que “a contaminação se estenda progressivamente ao longo do Rio São Pedro, atingindo o rio Paracatu e o rio São Francisco”.
Com relação aos seres humanos foram analisadas 37 pessoas da região do Santa Rita, sendo 08 crianças e 29 adultos, cujo valor de referência é de 10 μg/gCrea (fixado pela Portaria SSST/MTE nº 24), porém, nem esse valor não é considerado seguro, pois uma substância tóxica e cancerígena como o arsênio o ideal é que o valor seja 0 (zero), segundo o pesquisador.
O resultado, porém, está longe de ser o ideal já que a média em crianças foi de 18,0 μg/gCrea (um menino de 08 anos teve resultado de 32,5 μg/gCrea). Já em adultos a média foi de 13,8, μg/gCrea. Pouco mais de 70% da população amostrada está contaminada, o que é considerado grave, já que não existe dose segura, de acordo com o estudo.
Segundo o pesquisador, o nível de arsênio na população de Paracatu está 50% acima do Valor de Referência e considerando a população de 90.000 pessoas, fazendo cálculos percentuais, cerca de 1.332 pessoas estão com nível de contaminação por arsênio acima de 50 μ/L.
O próprio autor do estudo define algumas ações emergenciais como: fornecer água potável aos moradores e animais de criação da Bacia do Ribeirão Santa Rita; anular a decisão do órgão licenciador, que concedeu à mineradora o automonitoramento ambiental do empreendimento da Mina Morro do Ouro; realizar exames clínico-laboratoriais regulares  e cuidados médicos periódicos por tempo indeterminado nos moradores além de procurar compensar a população pelos danos sofridos.
A Comissão de Administração, Serviços Públicos e Cidadania responsável pela audiência irá se reunir na próxima terça-feira (05) para definir ações a partir dos resultados e informações fornecidos pelo Dr. Márcio.
 

Por Lorranne Marques 
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