28 fev 2012 14h57

Quaresma - Caminho de Conversão

Dom Leonardo de Miranda Pereira
Dando início à quaresma na quarta-feira de cinzas, a Igreja propõe que esse tempo seja entendido e vivido à luz do mistério pascal de Cristo. Na realidade, a quaresma visa sobretudo preparar a celebração da Páscoa. Para tanto devemos dispor-nos pela penitência, isto é, pela mortificação, ou melhor, pela conversão de nossa vida.

Um elemento histórico ajuda-nos também à melhor compreensão do sentido da quaresma. Antigamente, a Igreja preparava os catecúmenos para a iniciação cristã durante os 40 dias que precediam a páscoa (o que costuma acontecer ainda hoje). Eram então convidados à oração, ao jejum e à prática da caridade expressa pelo termo esmola. Hoje, a liturgia da quarta-feira de cinzas, que abriu semana passada o tempo da quaresma, proclama o trecho evangélico em que Cristo recomenda oração, esmola e jejum. É como que, em síntese, todo o programa de conversão que a quaresma nos propõe. Oração, até que se compreende. Esmola também. Mas, mortificação, penitência... Isso ainda faz sentido hoje? Sim, e como faz! Salta aos olhos. A Igreja não faz mais que seguir e atualizar o exemplo do próprio Jesus que, antes de iniciar seu ministério público, o anúncio do Evangelho e o convite à conversão, entregou-se a 40 dias de jejum e oração, fortalecendo-se em sua natureza humana para combater prontamente as insinuações tentadoras do demônio. Ouçamos, pois, o insistente convite da Igreja para que cada qual compreenda, viva e celebre o sentido genuíno da quaresma.

Como o povo de Israel que andou vagueando 40 anos no deserto, antes de entrar na terra prometida; como Moisés que esteve 40 dias em oração no alto da montanha; como Jesus que passou 40 dias de retiro antes de iniciar o anúncio do reino que o Pai Eterno lhe confiara; assim é a quaresma. É tempo de conversão. Tempo favorável para dar novo rumo ao nosso viver. Tempo adequado para deixar tudo o que é velho em nós, segundo a linguagem evangélica, para assumir o novo, isto é, o que nos traz a vida nova, a vida divina, a vida da graça santificante. E nada de pensar que quaresma é tempo triste, no qual só se medita sobre a Paixão de Jesus, só se faz penitência e se pede a Deus o perdão dos pecados. Pode e deve haver de tudo isso. Mas o que marca a quaresma é, sobretudo, sua dimensão pascal, caminho para a Páscoa, comemoração da morte e ressurreição de Jesus. Sem esta referência a quaresma perde seu sentido, perde sua força espiritual.

A quaresma tem a sua espiritualidade própria, caracterizada pela escuta atenta, silenciosa e orante da Palavra de Deus. Esta palavra ilumina a vida e chama à conversão. O confronto com o Evangelho ajuda a perceber o mal, o pecado, o afastamento de Deus, mas ajuda sobretudo a direcionar a vida na perspectiva da aliança divina, isto é, a misteriosa relação de amor entre Deus e seu povo.

Enfim, seguindo um costume que já vai para 48 anos, a CNBB propõe ao longo da quaresma a Campanha da Fraternidade, que tem sido até agora uma das atividades de mais ampla e bem sucedida evangelização da Igreja no Brasil. Ela se realiza durante a quaresma para nos ajudar a viver a fraternidade em compromissos concretos no processo de transformação da sociedade, a partir de um problema específico que toca a todos nós. A Campanha da Fraternidade não esvazia o sentido da quaresma nem se sobrepõe a ela, pois não se trata de uma atividade paralela.

Ela é proposta precisamente para dar sentido à quaresma e evitar que este tempo tão significativo na vida da igreja caia na rotina do repetitivo, tornando-se precioso meio para a evangelização no tempo quaresmal. Visando sensibilizar as pessoas para a prática de hábitos saudáveis, para o serviço aos enfermos e para a importância da organização da Pastoral da Saúde nas comunidades, a CNBB propõe como tema da atual Campanha da Fraternidade a questão tão complexa e polêmica da saúde pública, tema a que voltaremos no próximo artigo.
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