22 jul 2010 10h27

Antes que acabe a esperança - "52 SEMANAS ON-LINE"

T.S.Lion
Muitos de nós vivemos sob o signo da des-esperança. As grandes massas populares, no entanto, despossuídas que são da atenção dos que se auto-intitulam Senhores do Mundo, depositam a sua esperança naquilo que primeiro lhe aparece à frente. Por isso, muito provavelmente o esporte, notadamente o futebol, ocupe tanto espaço na vida de significativo grupo de pessoas. Basta ver como reage a Nação em época de Copa do Mundo: a população enfeita a cidade, pinta as ruas, pendura bandeirolas; mesmo aqueles mais reticentes assistem aos jogos, torcem, gritam, choram, se emocionam. Se a Seleção Brasileira perde, o país se cobre de luto.

Houve um tempo em que a nossa esperança estava depositada num único homem: Ayrton Senna. Nas manhãs de domingo centenas de milhares de brasileiros ficavam colados diante da TV esperando a performance do carismático corredor. Até que numa fatídica manhã de domingo o vimos morrer batendo de frente no muro de proteção do Autódromo Enzo e Dino Ferrari, em Ímola, durante o Grande Prêmio de San Marino de 1994. O Brasil cobriu-se de luto de norte a sul e pranteou a morte de Senna como se chora o falecimento de um ente querido.

Em quem, ou no que, o povo simples, los de abajo, depositará a sua esperança? Na política? Talvez devêssemos colocar nas mãos dos que se dizem líderes políticos a nossa esperança. Até já fizemos isso num momento bem recente da nossa história. Mas, infelizmente, nada de substancialmente significativo aconteceu que nos impulsione a permanecer com a mesma gana e esperança de que tudo pode mudar pela via da ação política. O mundo tornou-se demasiadamente pragmático, a economia de mercado domina todas as esferas do poder, de modo que a prudência manda tomar determinados cuidados e não protagonizarmos grandes transformações. Em decorrência dessa nova ordem mundial nos tornamos frios, pragmáticos e excessivamente objetivos. Não há mais aquela esperança de que tudo vai mudar a partir da eleição dos mesmos ou de novos candidatos. E quando as eleições se realizam apenas na esfera municipal, a situação se agrava ainda mais. Muitos são os que votam esperando obter benefícios pessoais, sem dar a menor importância para as questões gerais e que atendam aos interesses da maioria. Isso talvez decorra do fato de tanta gente de caráter duvidoso ter feito da política um meio de vida, em vez de usá-la a serviço do bem comum.

Somos tentados em depositar nossa esperança em forças ou pessoas que estão para além do nosso cotidiano. Para tanto, escolhemos times de futebol, líderes carismáticos, sejam eles atletas, políticos ou religiosos. O grande problema reside no fato de, nem sempre, verificarmos se esses líderes, ou pseudo-líderes, são pessoas retas, com padrões éticos sólidos e que sejam verdadeiramente merecedores de nossa confiança. Boa parte desses ídolos é fabricada pela grande mídia, que cria uma áurea, que lhe dá super poderes, enfim. De maneira que, quando menos esperamos, a máscara cai, e aqueles que antes eram adorados e idolatrados pelas massas se transformam em anti-heróis tão logo lhes caia a máscara que usavam, muitas vezes imposta pelos meios de comunicação que estão muito mais preocupados em obter lucros do que em mostrar bons exemplos.

Erra quem pensa que está aqui a fonte da nossa esperança. Quem é o homem para que depositemos nele a nossa esperança? Um nada é o ser humano. Frágil, limitado, suscetível a todo tipo de influências. Sobretudo de más influências. Aqui e acolá vemos pessoas que verdadeiramente têm algo a nos dizer: Gandhi, Tereza de Calcutá, Luther King, Mandela, Hélder Câmara. Esses homens e mulheres são reservas morais do Século XX. Porém, ainda assim, não é neles que devemos colocar a nossa fé nem muito menos a nossa esperança.

A segunda das três virtudes teologais, a esperança é a força motriz que nos conduz para o futuro. A vida para, a existência perde o sentido, o amanhã tende a mergulhar em profunda obnubilação quando morre a esperança. Mas ela, no entanto, carece estar assentada em base sólida para que as intempéries e vicissitudes do dia a dia não a tirem de nós. Deve ser, por isso mesmo, algo pró-positivo e assentada sob duas bases: no coração do nosso ser e, sobretudo, n’Aquele que está para além da frágil condição humana.

Isso significa que, ainda que nos tirem tudo, como sucedeu a Jó ou mesmo ao povo haitiano em recente desastre natural, essa centelha não pode desaparecer de todo. É ela que nos impele a continuar vivendo e acreditando no ser humano e em sua inesgotável capacidade de sempre poder recomeçar. Para não parecer esta tese um antropocentrismo barato, que aqui fique registrado: incapazes que somos de, por nós mesmos, termos para tudo uma solução, creio que nossa esperança, para ser perene, necessita se voltar para o Autor da vida, o Senhor dos Mundos, Adonai, YHWH, cujo Filho por nós viveu, morreu e ressuscitou.
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POST-SCRIPTUM – Ou “52 semanas on-line”
Em junho de 2009 produzi três pequenos ensaios (Paracatu às vésperas de um linchamento, Opinião pública, mimésis e mitologia e, por fim, O bode expiatório e a busca da harmonia perdida) que foram posteriormente publicados no jornal O Movimento de Paracatu-MG. Os artigos visavam lançar luz sobre o acalorado debate entre o médico e cientista Sérgio Dani e a mineradora Kinross Gold Corporation, à época em pé de guerra. Os textos foram, depois, disponibilizados aqui no Paracatu.net, por iniciativa de Glauber César. Propus, na ocasião, escrever durante um ano, ou, para ser mais preciso, por um período de 52 semanas. E assim aconteceu. Os artigos foram ganhando leitores e se multiplicando. Dada a abrangência dos assuntos, outro portal, desta feita de Belo Horizonte (www.metro.org.br), passou também a publicar os textos, mas, com a novidade de traduzi-los para o castelhano, o que me possibilitou arrebanhar leitores nos países de língua espanhola. Este ensaio que ora disponibilizo é o 52º, o que significa que encerro aqui a minha participação neste site. Fica o meu sincero agradecimento ao Glauber, por ter aberto este espaço, mas agradeço, sobretudo e principalmente a você, caro amigo leitor, razão pela qual escrevi durante estes últimos doze meses. Um abraço, y hasta la vista, compañeros!
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