24 set 2009 01h13

Seja você também um transgressor

T.S.Lion
Seja um traidor. Apenas os transgressores são capazes de transformar. Só os grandes traidores foram capazes de modificar substancialmente o curso da História. Quer exemplos? Então vamos.

A História está repleta de traidores. São arquétipos através dos quais a própria cultura se estrutura e se define como tal. O primeiro grande transgressor (transgressor e traidor serão tratados aqui como sinônimos) da humanidade é Adão. Ele e sua companheira transgridem, traem às ordem do Criador e, movidos pelo desejo e pela curiosidade, comem do fruto da árvore do Conhecimento. Ambos, que viviam como que alienados de si mesmos, ganham consciência e se veem nus. São nossos arquétipos primevos. Depois tiveram dois filhos: Caim e Abel. Grande parte dos substantivos hebraicos deriva de verbos. De modo que, enquanto (Caim) Qayn se aproxima do verbo qanah, adquirir, ou seja, um verbo forte; (Abel) Hável significa sopro, futilidade, um nonada, como diria Guimarães Rosa. Já sabemos que Caim matou a seu irmão Abel. Pois bem. Foi justamente a esse assassino, a esse grande transgressor e traidor, que Deus reservou a tarefa de fundar a primeira cidade, a primeira civilização. E Deus o protege, proibindo terminantemente que o vinguem!

Há outros transgressores ainda e de igual importância: Abraão é um deles, ao romper com sua parentela e andar à procura de uma terra distante da dos seus pais. Ele é o traidor da família, a ovelha perdida, desgarrada do rebanho. E outra vez Abraão transgride. Uma vez mais Abraão trai, ao abençoar seu filho Isaac, em detrimento do primogênito Ismael, como era o costume. Mas Isaac, porém, também será traído. Já velho e quase cego, Jacó vem ao seu encontro e rouba a primogenitura, enganando a seu pai e ao seu irmão Esaú, o primogênito. Tudo isso, frise-se bem, com a cumplicidade de sua mãe. Interessante observar é que esses transgressores, na sua totalidade, não serão severamente punidos. A maioria contará, inclusive, com a cumplicidade do próprio Deus.

Não há maior injustiça do que classificar Judas Iscariotes de traidor! Judas, ao “trair”, ou melhor, ao delatar a Jesus, se mostra um conservador. Ele é alguém que se posiciona contra Jesus, este, sim, o transgressor por excelência.

Antes de concluir este raciocínio, é preciso fazer alguns esclarecimentos. O primeiro: uma coisa é cumprir a Lei; outra bem diferente é cumprir o espírito da Lei. Essa é a grande discussão que Jesus coloca para os homens do seu tempo. Os fariseus eram homens piedosos e fiéis cumpridores da Torah. Mas se preocupavam apenas com a letra morta, com o que estava impresso nos Cinco Rolos, nada mais. Por isso Jesus tantas vezes os advertia dizendo: ouvi o que foi dito pelos antigos, eu, porém vos digo... Porque ele se preocupava com o espírito da Lei, com o que está para além da palavra morta.

O segundo: Jesus, ao mesmo tempo em que cumpre a Lei – e isso é fartamente mostrado nos Evangelhos –, é também um descumpridor. Faz cura no Shabbat, (em dia de sábado, sagrado para os judeus), colhe espigas com seus discípulos; come sem seguir o ritual de lavar as mãos, inclusive com pecadores: prostitutas, cobradores de impostos, etc. Ele entende que para ser fiel a Moisés, é preciso “trair” a própria Lei. De modo que, quando Judas aparece disposto em entregar o Messias, ele está fazendo o jogo do poder do Templo, ele está fazendo cumprir a Lei! Pasmem, mas foi isso mesmo o que ele entendeu que estava fazendo. O transgressor, o traidor, seguramente não é ele, se o olharmos sob esta ótica. Só que ele era muito burro! E não entendeu que a “traição” de Jesus visava justamente fazer cumprir a Torah no que ela tem de essencial: a proteção da vida. Judas, então, aparece como o arquétipo do pseudo-traidor, ao lado de Joaquim Silvério dos Reis e de tantos outros que estão mais preocupados em manter o status quo a qualquer custo, ainda que isto resulte na morte de seus amigos. Porquanto, um delator. Destarte, antes de acusarmos alguém de traidor, nunca é demais fazer uma análise acurada da questão, pesando as razões de cada um, do traído e do traidor.

Este nosso raciocínio se aplica a outros personagens da História. Joaquim Silvério dos Reis, citado logo acima, ao trair os Inconfidentes, estava também – igual Judas – sendo fiel à Coroa portuguesa. Estava cumprindo a Lei. Sendo, por isso mesmo, os Inconfidentes os verdadeiros transgressores. Liev Trotski foi acusado e perseguido por Stálin por haver traído a Revolução e o Estado Soviético. Ora, de fato podemos até sustentar a tese de que ele traiu o Estado. Mas não a Revolução de Outubro. Segundo essa lógica, trai-se para ser fiel. E o infiel passa a ser aquele que segue rigidamente leis caducas, a ética e a moral estabelecidas.

Muito embora não seja visto como tal, mas o comandante Che Guevara também pode ser posto nesta lista. Em pleno estado revolucionário, Che renuncia ao seu posto de ministro, à cidadania cubana e se embrenha pelas selvas bolivianas promovendo a guerra de guerrilha, a revolução permanente. Por isso ele é amado. Cultuado. Não faz muito tempo que vimos estarrecidos pela tevê Fidel tropeçar e cair. Aquela queda foi uma metáfora da própria Revolução Cubana. Que ela estava caduca, caindo aos pedaços. Que precisava ser renovada. E Fidel compreendeu, em parte, isso. Tanto que promoveu mudanças, afastou-se do poder – embora tenha colocado seu irmão Raul –, mudou ministros, enfim, o jovem guerrilheiro acordou com o tombo do velho revolucionário.

A vida é dinâmica. E a dinâmica da vida exige mudança constante. Essa mudança às vezes comporta traição, transgressão. Se isso for preciso, não tema: traia, transgrida. Não tenha medo em ser um eterno inconformado. Só os inconformados são capazes de promover mudanças significativas na sociedade. Busque dentro de você o que há de essencial e verdadeiro. Seja fiel à sua essência. Não se deixe enganar pelas aparências. Não seja um traidor de você, ainda que para isso seja necessário trair.
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