16 ago 2011 15h47

Do Noroeste de Minas para o Mundo

WebReporter
Gabriel só não é o jogador mais jovem da Seleção Brasileira sub-20 por um dia – nasceu em 27 de setembro, horas antes do zagueiro Frauches. Ainda com 18 anos, o goleiro que calça 43 e mede 1,93m está visivelmente em fase de crescimento. Pode não chegar aos 2,0m de altura, mas debaixo da meta não há limites que pareçam brecar sua evolução. No domingo, contra a Espanha, o camisa 1 considerou ter feito o melhor jogo de sua carreira. Dono de saídas arrojadas, defesas elásticas, reflexos apurados e dois pênaltis salvos, ele foi o principal responsável por garantir o Brasil na semifinal do Mundial da Colômbia.

Longe das balizas, suas falas e atitudes também sugerem alguém um tanto mais experiente. Gabriel, por exemplo, a todo o momento procura exaltar o grupo, repartir os méritos com quem correu por 120 minutos no gramado pesado do Estádio Hernán Ramírez Villegas. Centrado e apegado à fé, o arqueiro superou a infância humilde e a morte do pai para trilhar sua rota no mundo do futebol. No que depender de atuações como a última, ela será de sucesso absoluto.

– Em primeiro lugar agradeço a Deus. Na primeira fase não houve uma partida que tivesse que trabalhar tanto assim. Valorizo o jogo inteiro, todos os lances, todos os momentos nos quais eu participei. Foi a melhor partida da minha vida com certeza, não só pelas defesas, mas pela importância de uma quartas de final de Copa do Mundo – disse o goleiro, em entrevista ao GLOBOESPORTE.COM.

Infância de dificuldades

Episódios em sua vida ajudaram Gabriel a ser a pessoa que é hoje. Ao perder o pai Orlando em um acidente de carro quando tinha apenas seis anos, Gabriel passou a ser criado somente pela mãe Márcia e a avó Osvaldina. Ganhou um padrasto, a quem considera como se fosse um pai. De Unaí, no interior de Minas Gerais, mudou-se para a capital Belo Horizonte, onde começou a jogar em escolinhas.

– A vida em Unaí sempre foi dura, minha mãe teve que trabalhar como doméstica por muito tempo para que eu pudesse comprar uma chuteira, um tênis que eu queria. Sou evangélico, ela me criou na Igreja e ganhei bons princípios que não abro mão. Aos 12, fui eleito o melhor goleiro de um campeonato e recebi o convite de uma bolsa para estudar em Belo Horizonte. Aceitamos porque não tínhamos dinheiro na época para pagar um colégio melhor em qualquer outro lugar – afirmou.

Foi o empurrão que Gabriel precisava. O adolescente foi crescendo e recebeu outras propostas até ser indicado ao Cruzeiro por Éder Bastos, atual assistente do técnico Ney Franco na comissão técnica da Seleção sub-20. Engana-se, porém, quem pensa que foi fácil.

– Ia para a escola de manhã, treinava à tarde no Cruzeiro e futsal no colégio à noite. Pegava quatro ônibus por dia, almoçava na rua... Hoje estou vendo a recompensa.

Renovação com Cruzeiro à vista?

A Raposa, no entanto, ainda luta para transformar a confiança em Gabriel no papel. Com contrato até maio de 2012, o goleiro viajou para a Colômbia sem ter renovado, mas garante que não será problema. Afinal, o seu sonho é mesmo atuar com a camisa azul entre os profissionais.

– Já tivemos algumas conversas, está tudo encaminhado. Creio que chegando em Belo Horizonte vamos ter o acerto, porque está em meu projeto renovar. Tenho um ídolo que é o Fábio, respeito muito ele, mas quem sabe minha oportunidade não está chegando? A diretoria vai me valorizar e sabe que eu quero continuar. Sou cruzeirense desde pequeno – contou.

A atuação de Gabriel também o fez valorizar. E ele tem o apoio irrestrito do preparador de goleiros do Brasil, Rogério Maia.

– Foi muito concentrado e eficiente no jogo inteiro. Não só nas penalidades, mas também durante os 120 minutos. Jogou como líbero quando necessário, saiu nos cruzamentos fechados, posicionou-se corretamente quando os atacantes estavam cara a cara, em chutes de fora da área com o campo molhado, usou bem a técnica... Os pênaltis foram somente a cereja do bolo – disse Maia.

Dentre todos os fundamentos, outro bastante comentado pelo camisa 1 foi o jogo com os pés

– Goleiro que sabe jogar com os pés é muito valorizado. Observei o espanhol (Fernando Pacheco) que trata muito bem a bola, e a escola espanhola força isso. Os brasileiros ainda estão crescendo, se desenvolvendo para transformar isso em virtude. Mas para fazer embaixadinha e colocar a bola parada no pescoço ainda estou longe, muito longe. Um dia eu consigo (risos).

Espanha, agora, é passado

A partir desta terça-feira, Gabriel tentará guardar em um canto de sua memória os lances que o consagraram como melhor em campo no domingo. Na quarta, a Seleção enfrenta o México, pela semifinal, e ele sabe que poderá perder todo o crédito que conquistou no caso de uma falha.

– Não podemos pensar que está tudo mil maravilhas porque ganhou da Espanha, que é uma excelente equipe. Faltam dois jogos, temos que manter a cabeça focada para não perder na semifinal. Todo mundo esqueceria na hora o que fizemos no domingo. Passaram as defesas, os pênaltis, a Espanha... Espero não precisar fazer tudo de novo contra o México – encerrou.
fullscreen

Recentes

Mais Vistos

© 2015 - PARACATU.NET - Todos Direitos Reservados. by #mndti